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Domingo, 14 de Agosto de 2011
Título Original: Gone
Autoria: Michael Grant
Editora: Planeta Manuscrito
Nº. Páginas: 455
Tradução: Victor Antunes
Sinopse:
Num abrir e fechar de olhos, todos desapareceram.
Todos menos os mais novos: os adolescentes, os alunos dos primeiros anos, as crianças pequenas. Não ficou um único adulto. Não havia professores, nem polícias, nem médicos, nem pais. Como também de repente deixou de haver telefones, internet e televisão. Nenhuma maneira de perceber o que se tinha passado. Nenhuma maneira de pedir auxílio.
A fome é uma ameaça. A lei é imposta pelos mais fortes. Uma criatura sinistra aguarda na sombra a sua oportunidade. Os animais sofrem mutações. O mesmo acontece com os próprios adolescentes – que adquirem poderes estranhos, inconcebíveis, mortíferos –, que se vão desenvolvendo e afirmando de dia para dia. Um terrível mundo novo. Definem-se facções, o confronto é inevitável. Os miúdos da cidade contra os meninos ricos. Os mais fortes contra os mais fracos. Os que têm poder contra os que não o têm. E o tempo escoa-se inexoravelmente. Todos, sem excepção, estão condenados a desaparecer no dia em que completarem quinze anos.
Opinião:
Sensacionalmente espectacular, foi com este pensamento em mente que terminei a leitura de Desaparecidos. E, agora, pergunto-me: poderia ser de outra forma?
Este é um livro fabulosamente bem escrito e coerente. Cativante e expectante. Até ao último momento tudo pode acontecer e é essa expectativa e iminente insegurança e surpresa que motiva o leitor a continuar a folhear página, atrás de página, atrás de página.
As personagens principais e mais enaltecidas neste primeiro livro são simplesmente únicas, completamente diferentes entre si com medos e desejos distintos, perfeitas à sua maneira e extremamente comovedoras e emocionantes. Sam Temple assume a liderança, apresentando-se com uma personalidade forte, mente certa e atitude convicta. Ainda que, por diversas vezes, se sinta abalado com tudo o que está a acontecer à sua volta e sem saber bem como agir, Sam é uma personagem que se mantém robusta do começo ao fim, assumindo um papel de líder ou chefe quando necessário e sempre procurando encontrar o melhor termo de igualdade e sobrevivência entre e para todos. Este último é o aspecto mais importante de toda a nova e incompreensível jornada por que todos passam – acima de tudo, sobreviver.
Astrid Ellison, ou mais conhecida como Astrid, o Génio, é, sem sombra de dúvida, a figura feminina que mais se destaca pela forma madura e adulta com que se esforça por solucionar problemas inesperados, com que cuida do irmão mais novo e doente mesmo sabendo o segredo que ele obscuramente guarda e, principalmente, pela maneira como parece ser o elo sólido e solidário que serve de ligação e compromisso entre Sam Temple e outras personagens ligeiramente mais secundárias.
Caine Soren foi uma surpresa, assim como Diana Ladris e Drake Merwin. Pertencendo aos ditos ricos e problemáticos alunos da Coates Academy, são personagens que se integram muito bem nas diversas fases mais susceptíveis, perigosas e maquiavélicas da narrativa. Caine, o Intrépido Líder dos “anormais” da Coates é constante no perseguir de um sonho – ser o responsável por todos os jovens e crianças de Perdido Beach e da Coates assim como o mais poderoso dos anormais – ou seja, daqueles que detém o poder. Diana é algo subversiva e, por vezes, dúbia, deixando o leitor na expectativa de que, talvez, abra os olhos e mude de lado mas, ainda assim, consciencializando o mesmo do seu lado mesquinho e puramente negro e mau. Finalmente, Drake. Drake é cruel, agressivo e feroz a um nível que eu nunca antes tive oportunidade de ler. Se por vezes sentimos uma certa e algo improvável empatia com ele, rapidamente nos vemos forçados a redobrar o nosso sistema de segurança pela imprevisibilidade e excentricidade que Drake é capaz de mostrar de um momento para o outro. Contudo, é uma personagem que decididamente surpreende pela personalidade fixa e imutável, ainda que esta vá progredindo a níveis exacerbados de diabolismo durante o desenrolar da história.
O enredo, para além de brilhantemente bem construído e pensado, é também imensamente criativo e inovador. Imagine-se o caos que seria se, numa fracção de segundo – num autêntico abrir e fechar de olhos –, todos os maiores de quinze anos desaparecessem não se sabe para onde... e, para piorar, se igualmente deixasse de haver internet, televisão e telefone e a corrente eléctrica existente passasse a ser uma incerteza no que diz respeito a saber-se em concreto a duração de tempo em que continuaria a ser sustentável... Agora, acrescente-se a racionalização da comida, a tentativa de descoberta do que se está a passar, o pânico e desespero presente um pouco por todo o lado, a muito pouco provável sobrevivência dos mais pequenos, etc....
Michael Grant criou, em Desaparecidos, uma trama de suster o fôlego da primeira à última frase. Às tantas, o leitor sente-se tão desconfortável e irrequieto perante uma desumanidade e violência gritantemente atroz e triste que nem sabe bem para que lado se virar. É o realismo e a ferocidade com que Grant presenteia o seu público que faz, deste seu primeiro volume de uma série no mínimo esplêndida, um dos livros mais perturbadores e conscientes que tive o prazer de ler. Em última instância, Desaparecidos foi um livro que adorei folhear. Este é comovente, inquietante e recheado de surpresas do princípio ao fim. Quando o leitor acredita não ser capaz de se ver novamente surpreendido, é quando Grant dá a volta a tudo o que então ficou conhecido para apresentar uma versão ainda mais dominadora e bárbara que a anterior. Apesar de se tratar de uma obra juvenil e direccionada a um público mais jovem dada a linguagem simples e quase cinematográfica, a idade das personagens e alguns momentos escritos, não creio que o seu conteúdo possa ser profunda e completamente apreendido por uma camada de leitores tão nova. Pessoalmente, vejo Desaparecidos como um livro juvenil escrito para adultos. E, sinceramente, mal posso esperar para saber que segredos e selvajarias esconde a Sombra, que mais irá acontecer na ZRJ – Zona Radioactiva Juvenil –, e quanto mais sombrios e selvagens se tornarão os seus habitantes.
Uma estreia perfeita. Um livro que todo o amante de ficção científica e até de fantasia deveria de ler. Muito, muito bom. Agora, que venha FOME!
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