quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Sangue Ruim, Rhiannon Lassiter



Título Original: Bad Blood
Autoria: Rhiannon Lassiter
Editora: Contraponto
Nº. Páginas: 227
Tradução: Elsa T. S. Vieira


Sinopse:

Roley, Catriona, Katherine e John chegam a Fell Scar, a casa de família.
Descobrem uma divisão secreta, lêem uns livros bolorentos e libertam umas bonecas sem olhos da caixa onde se encontravam guardadas. Mas não compreendem o que fizeram.
Quanto tempo demorarão a perceber o horror que despertaram?
Numa casa há muito fechada, a porta de um dos armários abre-se para uma espécie de sala de jogos. Coberta de pó, uma colecção de livros infantis apresenta os nomes das personagens selvaticamente riscados.
No passado, três crianças jogaram ali ao jogo do faz-de-conta, sacrificando os seus sonhos, pois acreditavam que ao fazê-lo tornariam real aquilo em que acreditavam. No entanto, o jogo não foi terminado e, no bosque por trás da casa, uma criatura esfomeada espera desde então pelo único alimento que conhece.
Décadas mais tarde, uma família vem passar férias a esta casa. As crianças depressa se vêem envolvidas no jogo. Só que elas não sabem as regras. Nem tão-pouco que são os peões, e não os jogadores…


Opinião:

Construído a partir de um conceito incrivelmente promissor, Sangue Ruim retrata de forma engenhosa uma aventura intrigante pelo mundo dos jogos do “faz-de-conta” e do imenso potencial do imaginário juvenil.
Rhiannon Lassiter pode não ser um génio da escrita mas não restam dúvidas quanto à sua capacidade em construir um enredo interessante, propício à progressiva propagação do medo e à constante sensação de desconforto e incerteza por parte do leitor, aquando da sua envolvência pessoal com a história.

Embora estivesse à espera de um consistência mais avolumada de terror e suspense, Sangue Ruim conseguiu ainda assim colocar-me numa situação algo incómoda, principalmente após constatar que uma das intervenientes de maior destaque é uma peculiar boneca de criança. Para quem não sabe, sou uma ávida coleccionadora de bonecas ditas “mortas-vivas” (chamadas, Living Dead Dolls) e mesmo tendo-as guardadas num local seguro, houve breves momentos verdadeiramente assustadores em que pensei que alguma delas poderia estar, naquele preciso instante, a rastejar até ao meu quarto... Tenho uma imaginação muito fértil e, para grande infelicidade minha, sou igualmente sensível e impressionável e tendo em conta a atenção e cuidado prestado, por parte da autora, a esta “personagem”, confesso ter sido o suficiente para deixar a facilidade do susto assentar.

Outro detalhe que me perturbou foi o facto de associar grande parte da história deste livro a uma série televisiva actualmente na moda – American Horror Story – e, da qual, inicialmente, pouco ou nada de percebe. Pessoalmente, encontrei em Sangue Ruim o mesmo tipo de premissa construtiva – a incompreensão face a tudo o que está a acontecer é uma das sensações que persegue o leitor praticamente durante toda a narrativa mas, de um modo perturbadoramente agradável e suspeito, esta é seguida de uma intensa e quase mórbida curiosidade de descoberta pelo que é impossível colocar a leitura totalmente de parte.

As personagens são invariavelmente sensíveis e palpáveis, muito próximas do real e mesmo tendo gostado de todas elas, Kat(herine) foi aquela que me agarrou desde o início até ao fim. Sendo ainda uma criança revoltada com a recente adição e, consequentemente, confronto familiar, mostra-se uma rapariga extremamente criativa, simples e inteligente, que ama os seus livros mais do que qualquer outra coisa no mundo. Sendo esse o seu refúgio contra a infelicidade do dia-a-dia, será a sua persistência e dedicação que a levará, juntamente com os três irmãos, ao confim dos mais tenebrosos pesadelos onde o impossível se torna evidente, se torna material. Em contrapartida, John foi aquele que me deixou com maiores dúvidas, talvez pela sua complexidade enquanto personagem principal e, até, sendo um rapazinho de dez anos, pela sua maturidade quase demasiado excessiva. Tendo em conta a sua importância para o deslindar do mistério, seria de esperar que a autora lhe prestasse um pouco mais de atenção e, desse modo, lhe conferisse um desenvolvimento mais afincado por forma a que o próprio leitor pudesse criar, com ele, uma afinidade forte e completa.

Ainda de referir, Sangue Ruim é um livro que encanta pela componente visual que oferece, ou seja, não se tratando de um terror físico ou espírita pode parecer uma narrativa insípida e sem qualquer ligação ao género que alberga, contudo, se o leitor visualizar com cuidado toda a informação que lhe é presenteada, então sim se aperceberá não só do tremendo potencial da narrativa como da composição terrorífica que a perfaz.

Com criaturas e cenários perfeitos de se englobar no mundo mágico de um Tim Burton, numa história sinistra para um público juvenil e jovem-adulto, Sangue Ruim é uma leitura leve mas que sabe como deixar a sua impressão naqueles que, como eu, são mais sensíveis ao género. Uma aposta interessante, da já tão singular Contraponto
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