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Terça-feira, 6 de Março de 2012
Título Original: Unfinished Desires
Autoria: Gail Godwin
Editora: ASA
Nº. Páginas: 510
Tradução: Elsa T. S. Vieira
Sinopse:
Mount St. Gabriel’s é um dos mais prestigiados colégios femininos americanos.
Cada ano lectivo vê chegar novos rostos e dita um novo equilíbrio na hierarquia social da escola. No Outono de 1951, uma das turmas destaca-se pela excelência e singularidade, duas características que, juntas, são potencialmente imprevisíveis. Apenas a jovem professora Kate Malloy e a rígida matriarca da escola, a madre Suzanne Ravenel, se apercebem de que as espera um ano invulgar. Não poderiam, claro, imaginar até que ponto a história do próprio colégio se alteraria.
Tudo começa quando Tildy Stratton, a incontestada líder da turma, abandona a sua fiel aliada, Maud, para se aproximar de Chloe Starnes, uma nova aluna que ficou recentemente órfã após a morte prematura e misteriosa da mãe. Esta amizade preenche um vazio nas vidas das duas jovens e põe em marcha uma série de acontecimentos que vão ameaçar a delicada harmonia da escola e mudar para sempre a vida de todos.
Cinquenta anos depois, com o colégio há muito encerrado, a madre Ravenel recorda esse ano, cruzando passado e presente, numa derradeira tentativa de se reconciliar com as origens trágicas daquele que ficaria conhecido como “o ano tóxico”.
Opinião:
Por entre segredos e mistérios, um colégio privado devoto a Deus tenta controlar a maçã podre escondida dentro de um cesto opulento e gracioso. Mas quando um grupo de jovens senhoras está em causa, uma turma que tanto tem de precioso como de singular, de inteligência como de mesquinhez, acertar na maçã certa será um desafio. Infelizmente, quando esta é descoberta, demasiado tempo passou e imensas desgraças tomaram o seu curso. Muitos destinos alterados, muitas medidas drásticas formadas. Porém, uma questão permanece: o que foi que aconteceu a todas estas mulheres?
O Colégio de Todos os Segredos é um romance espantosamente bem escrito, que cativa o leitor logo ao fim da primeira página. Com um tom único e familiar, faz-nos recordar momentos do passado – de quando éramos meras crianças e queríamos ser algo mais, de quando nos sentávamos a escutar «as histórias que a nossa avó contava» ou de quando simplesmente sonhávamos mais alto, desejávamos mais alto, e fazíamos tudo com uma intensidade e irreverência rebelde que, hoje em dia, damos conta de que nos escapou por entre os dedos. Posso dizer que Gail Godwin é fantástica na forma como consegue simplificar, com palavras, um enredo profundamente intricado e reflectido, dotado de toda uma série de nuances e caminhos, vozes e vidas independentes. É simples e puramente maravilhoso percorrer todos estes rostos, estas pequenas hilaridades e traquinices de jovens crianças, estas chegadas à frente, tomadas de posse e de liderança e, claro, presenciar todos estes receios, mistérios e medos de mulheres adultas que lutam por manter secretos esses devaneios que, numa «vida passada» as moldaram e modificaram. Como um romance de mulheres para mulheres, O Colégio de Todos os Segredos é o livro que a perseguirá quando não o estiver a ler, que a fará não aguentar mais por lhe pegar e, acima de tudo, que a transportará numa viagem alucinante pela religião, perdão, amor e amizade, na voz única que é a de Godwin.
Esta é uma obra enobrecida pela grandiosidade das personagens que a adornam. Tão reais e, ao mesmo tempo, tão emotivas, estas mulheres (e homens – poucos, contudo) que expõem a sua vida nas páginas que tão lentamente queremos desfrutar, são perfeitas na sua imperfeição. Abrangendo um vasto leque de personalidades distintas, desde uma madre – Suzanne Ravenel – benevolente que, mesmo comandando com mão de ferro, faz de tudo pelo seu colégio e pelas suas alunas, a outra madre – Malloy – incrivelmente doce e delicada, que não só suscitará piedade como clemência, a três jovens alunas magníficas – Tildy, Maud e Chloe – que, tão diferentes umas das outras mas igualmente importantes no grande plano que este romance traça, são não só imprescindíveis como também elementos essenciais para a história e para o leitor que, habituando-se a elas, não consegue evitar querer saber mais sobre os seus destinos futuros; sem esquecer uma Cornelia de língua afiada e humor vincado, um Henry carinhoso e estupendamente paterno e uma Madeline fantástica no seu papel de irmã mais velha e que se preocupa em ajudar os outros, colocando-se sempre em segundo plano. Sem dúvida, um grupo de personagens belíssimas e espantosamente humanas e reais, que facilmente poderiam fazer parte da nossa vida, como amigas, familiares ou meras conhecidas. Acompanhadas por tantas outras, estas vozes serão guias especiais para a compreensão total de uma narrativa extremamente explicativa, detalhada e harmoniosa.
Quando os diversos intervenientes são, por si só, grande parte da alma de O Colégio de Todos os Segredos, é verdadeiramente surpreendente experienciar também o realismo e intensidade com que os vários cenários são compostos e descritos. Por diversas vezes acreditei ser aluna de tão prestigiada escola, ser a amiga de Tildy que a ajuda com as leituras ou que escuta os seus diabólicos planos, ou o fantasma imaginário de Chloe que a guia pela bondade e caminho correcto, ou até mesmo o ouvido certo que Ravenel tanto procura já no final da sua vida, agora pronta para desvendar tanto do seu mistério. Com incrível facilidade, consegui rever-me nestas personagens e nestes locais, sempre emocionalmente ricos, sempre deleitosamente narrados. E embora este livro não seja de leitura fácil ou deveras impulsiva, é, de forma única e bastante simples, um romance que vale a pena ser lido – uma história de descobertas, de finais inesperados e atitudes progressivamente poderosas na criação de consequências inalteráveis.
Somente tenho pena de Godwin, por vezes, deixar a sensação de se ter perdido no meio das palavras, emoções e mensagens que queria transmitir. Mas mesmo com algumas passagens demoradas e extensivas, e alguns devaneios pessoais de Ravenel que, a meu mero ver, poderiam ter sido reduzidos, este romance não perde nem um pouco da sua graciosidade e conforto. Escrito de forma simples, com uma linguagem cuidada e com atenção ao pormenor, esta é mais uma imperdível aposta da ASA, perfeita para quem não tem medo e gosta de digerir e aproveitar as suas leituras ao máximo, esmiuçando cada duplo significado, cada possível desfecho. Um livro muito bom, e uma história decididamente interessante. Gostei.
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