segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

União, Ally Condie



Título Original: Matched
Autoria: Ally Condie
Editora: 1001 Mundos
Nº. Páginas: 293
Tradução: Susana Serrão


Sinopse:

Cassia sempre confiou nas escolhas dos Funcionários. É um pequeno preço a pagar por uma vida longa, um emprego perfeito, um companheiro ideal. Quando o seu melhor amigo aparece no ecrã da União, Cassia tem a certeza absoluta de que ele é o certo... até ao momento em que vê um outro rosto aparecer no ecrã, por breves instantes, antes de este ficar negro. Agora Cassia vê-se confrontada com escolhas impossíveis: entre Xander e Ky, entre a única vida que conhece e um caminho que nunca ninguém ousou seguir – entre a perfeição e a paixão.


Opinião:

Imagina uma Sociedade que decide tudo por ti – o que comes, o que sonhas, quem amas, o que fazes, quando morres... Pessoas que não só foram exaustivamente treinadas para isso, como aceitam e se orgulham do trabalho que executam. Agora, imagina que bem lá ao fundo do túnel escuro consegues avistar uma luz, uma possibilidade de revolta, uma esperança de que possas ser livre, de que tenhas a oportunidade de escolher. Escolher uma coisa, qualquer coisa! Tomar uma decisão por ti mesmo. Só que tudo tem um preço. E, nem sempre, esse valor está naquilo que terias de abdicar ou nas pessoas que farias sofrer. Às vezes, somente às vezes, o preço está naquilo que te fizeram a ti. E isso, ninguém pode apagar... muito menos, contornar.

União é um livro algo revoltante. Ao retratar uma época futura onde a mão de obra humana é utilizada unicamente nos trabalhos mais árduos e menos recompensadores, onde entidades «invisíveis» controlam os movimentos do residente comum através da sua composição genética e predisposição social, e onde toda uma sociedade de peões é regida com base no medo e no esquecimento, é de esperar que a complexidade comunitária que perfaz este romance distópico seja, por si só, suficiente para instalar uma avolumada quantidade de interesse no leitor. No entanto, as surpresas não se ficam pela destreza tecnológica e imaginário futurista da autora, ao invés, esta oferece ainda um triângulo amoroso algo distorcido que não só está intrincadamente enraizado nas limitações que a Sociedade e os seus Funcionários impuseram aos habitantes, como abre as portas para um inteiro leque de possibilidades infinitas onde os riscos, mesmo perigosos e incontornáveis, poderão bem valer a pena.

É verdadeiramente impressionante, para mim, dar-me conta do quanto admiro este género de leituras e do quanto, por vezes, sinto a necessidade de desfrutar de um livro que provoque em mim algo mais que um mero sorriso ou um simples suspirar. É que há livros que nos fazem sentir, nos fazem pensar, nos fazem acreditar que tudo o que lemos e experienciámos é passível de acontecer, e União é um desses livros – ainda que algumas das suas mensagens se encontrem escritas nas entrelinhas visto ter sido imprescindível aligeirar o ambiente com um romance entre personagens adolescentes; caso contrário, seria uma obra demasiado séria, demasiado adulta para um público juvenil que tem como intuito principal fruir de umas boas horas de leitura e entretenimento.

As personagens, como seria de esperar, são indispensáveis para a total compreensão desta narrativa. Cassia é belíssima na medida em que se sente completa face as directrizes criadas para ela e em que se esforça por alcançar tais resultados. Porém, é o seu posterior questionamento relativamente aos secretismos e repentinas mudanças que começam a surgir um pouco por todo o lado que a impulsionam a apaixonar-se por uma pessoa que, mesmo não tendo escolhido a solidão voluntária, se encontra impossibilitada de amar, de se unir. Esse sentimento tão puro e, ao mesmo tempo, tão banal na forma como é instalado pela Sociedade, serve de mote para o desenrolar da história, criando uma série de conflitos e problemas que a personagem principal, Cassia, terá de enfrentar e resolver se quiser descobrir a razão por detrás de sua União dupla. A questão que fica por responder é: qual dos dois lados de Cassia prevalecerá – o racional que a impele a seguir as normas, a ser leal, a assegurar-se que nenhuma das pessoas que ama corre qualquer perigo... ou o emocional, que a encurrala num sentimento possessivo que não consegue largar, que não consegue ignorar?

Ky, por seu lado, é o protótipo perfeito do companheiro ideal. Com o seu quê de secretismo, é a personagem que melhor engloba e expressa a componente romântica da obra, no sentido em que as suas acções e gestos simples e, por vezes, enganadoramente insignificantes acabam por albergar um sentimento e uma vontade maior e mais intensas do que as de qualquer outro interveniente. A sua postura para com a Sociedade, tendo em vista que é um outcast, um marginalizado, é simplesmente espantosa. Mesmo camuflado num aglomerado de pessoas iguais, a sua chama e a sua inteligência nunca se apagam. Para mim, Ky é a melhor personagem deste enredo – a mais atraente, a mais sedutora, a mais misteriosa. A que levanta mais questões, mais dúvidas e a que enceta a mais importante revolta.
Na outra ponta do triângulo, está Xander. O rapaz maravilha, aquele que todas as raparigas desejam secretamente. Mas há muito mais nele que mera beleza física, e Cassia viu isso desde o início. Esta é uma personagem perspicaz, capaz de correr riscos para ajudar quem verdadeiramente gosta, alguém que não tem medo de mostrar o que quer e o quanto quer. No entanto, talvez por andar meio perdido durante grande parte da narrativa acabe por ser uma personalidade que desce para segundo plano, ainda que prometa arrebatar e surpreender no volume seguinte desta trilogia.

Muitos são os detalhes curiosos que União traz consigo. Por exemplo, as três pastilhas – a azul, a verde e a vermelha – que se tem de guardar religiosamente, os artefactos que, pela sua raridade e transmissão de geração em geração, adquirem uma importância extrema para os afortunados que ainda preservam algum, ou o sistema de triagem que, embora ligeiramente confuso, acaba por enquadrar genialmente no conceito criado pela autora. As surpresas são imensas, e gigantescas, e mesmo que União não seja uma obra desprovida de algumas semelhanças com outras séries, dúvidas não restam de que se trata de um livro cujo poder de novidade e interesse destronam qualquer influência externa que possa aparecer. Além de que, já viram bem esta capa? É, simplesmente, linda – o que vai de total encontro ao conteúdo. 
Uma excelente aposta da 1001 Mundos, numa estreia singular que merece ser destacada e apreciada por todos os jovens (e adultos também) que não dispensam uma boa história onde o amor e o futuro longínquo se abraçam numa união perfeita.  

2 comentários:

v_crazy_girl disse...

Já li este livrito há algum tempo e gostei muito do que li, estou muito curiosa para ler os seguintes ^^

Bjs*

Pedacinho Literário disse...

E somos duas, Crazy! Só espero que a 1001 Mundos publique a continuação. Caso contrário, terei de ler em inglês. É que quero mesmo saber o desfecho desta salganhada. :)

Beijinhos

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