terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Os Jogos da Fome, Suzanne Collins



Título Original: The Hunger Games
Autoria: Suzanne Collins
Editora: Editorial Presença
Colecção: Via Láctea, N.º 78
Nº. Páginas: 254
Tradução: Jaime Araújo


Sinopse:

Num futuro pós-apocalíptico, surge das cinzas do que foi a América do Norte Panem, uma nova nação governada por um regime totalitário que a partir da megalópole, Capitol, governa os doze Distritos com mão de ferro. Todos os Distritos estão obrigados a enviar anualmente dois adolescentes para participar nos Jogos da Fome - um espectáculo sangrento de combates mortais cujo lema é «matar ou morrer». No final, apenas um destes jovens escapará com vida…
Katniss Everdeen é uma adolescente de dezasseis anos que se oferece para substituir a irmã mais nova nos Jogos, um acto de extrema coragem… Conseguirá Katniss conservar a sua vida e a sua humanidade?
Um enredo surpreendente e personagens inesquecíveis elevam este romance de estreia da trilogia Os Jogos da Fome às mais altas esferas da ficção científica.


Opinião:

Num mundo que nada de novo ou seguro tem para oferecer à maioria dos seus habitantes, os mais poderosos e ricos tomam conta de uma sociedade à beira da rebelião, impedindo-a de agir fazendo uso de um jogo macabro e sangrento, a que chamam os Jogos da Fome. Num palco onde a morte é a personagem principal, vinte e quatro são os peões que sofrem pela única oportunidade de sobrevivência... e pela glória suprema. Mas no final, só um sairá vitorioso e nos Jogos da Fome, vencer não é tarefa fácil.

Sendo Panem uma “realidade” que não se encontra assim tão longínqua da nossa, é verdadeiramente arrepiante presenciar o quão para trás, em alguns aspectos, a sociedade andou. Em grande parte dos Distritos, fica a sensação de que se voltou ao tempo das cavernas, onde as pessoas caçam, colhem bagas e plantas e regateiam os bens mais básicos por outros produtos de profunda necessidade, para sobreviver. Onde pessoas morrem à fome, de doenças de cura simples e onde vivem que nem miseráveis. Onde o açúcar é uma regalia, o pão um bem caro e a carne um luxo. Enquanto que no outro extremo, temos um Capitólio exuberantemente rico em cultura, tecnologia e onde ninguém, nem uma única vivalma, sofre dos males que atingem diariamente os outros Distritos. Onde a electricidade é permanente, a comida sempre fresca e deliciosa, e as imperfeições físicas algo tratável e inexistente. Onde o extravagante e o excêntrico são um modo de vida... Essencialmente, trata-se de uma sociedade onde cada gesto, oferta ou sugestão tem uma consequência, requer algo em troca ou tem um significado pretensioso. Só que, na maioria das vezes, esse propósito não é necessariamente positivo ou proveitoso para todas as partes. É esta diferença social para com a realidade que nos aflige no dia-a-dia, por si tão estrondosa, que rapidamente se transforma num dos mais importantes atractivos desta narrativa.

Outro dos pontos fortes de Os Jogos da Fome é, sem sombra de dúvida, as personagens, nomeadamente três que vou referir de seguida.
Katniss bate qualquer heroína aos pontos. Embora seja uma jovem marcada pelo passado, é alguém que não tem receio de quebrar as regras quando aí reside a sua única forma de subsistência, ou a dos seus. É também uma rapariga perspicaz, extremamente inteligente e racional ainda que, por vezes, se deixe levar por pequenos impulsos matreiros. Dotada de uma personalidade forte, uma resistência física impressionante e de um individualismo necessário para a sua sobrevivência no futuro, Katniss, para além de crua, irreverente e sem papas na língua, é igualmente uma pessoa de bom coração que não consegue passar ao lado do sofrimento humano. Uma quase mulher sensível protegida por um escudo de força invisível, que lhe permite apostar na personalidade que a define. Claramente, uma protagonista de peso e que por si só, já vale a pena ler este livro.
Segue-se Peeta, um rapaz espantoso com um dom muito especial e que, ao fim e ao cabo, lhe serve de ponto de partida para vencer os Jogos. Uma personagem que está em constante mutação, que transmite uma certa sensação dúbia de mistério e incerteza e que cativa o leitor a querer descobrir mais sobre as suas reais intenções e possíveis estratégias. Um protagonista masculino – se assim se pode classificar – exímio, com as medidas certas de persistência, bondade e destreza. No final, foi ele o melhor jogador pois ao contrário de todos os outros, foi o único que jogou com o coração.
Por último, de entre tantos outros, destaco Rue, alguém que à partida nunca deveria de ter sido escolhida para participar nos Jogos da Fome, dadas não só as probabilidades de tal acontecer, mas principalmente pela sua idade, estatura física e fragilidade. Porém, a sua inteligência e agilidade permitem-lhe sobreviver por algum tempo, criar uma amizade inestimável e originar um escape, uma segunda oportunidade, a quem mais a ajudou dentro da arena. Uma personagem que cria uma certa empatia com o leitor, e que lhe enternece o coração ao ser-se confrontado com todas as situações de alto risco e morte iminente pelas quais ela tem obrigatoriamente de passar. 

Finalmente, não posso deixar de referir os próprios Jogos da Fome como um dos componentes que propicia à sofreguidão da leitura. Uma festividade anual onde a crueldade é um dado adquirido, a esperança um sentimento perdido e onde se tem de estar disposto a fazer de tudo, tudo mesmo, para se sobreviver. As armadilhas são incontáveis e nem todas estão nas mãos dos adversários. Sendo, acima de tudo, um jogo, uma fonte de entretenimento, a acção e os perigos são contínuos e encontram-se ao virar da esquina. Animais selvagens, mutações estranhas e alimentos mortais, nos Jogos da Fome existe de tudo um pouco... e, contudo, nem sempre é o suficiente.

Pessoalmente, adorei este livro como há muito não me enfeitiçava por uma leitura. De algo tão simples, a autora conseguiu criar o mais atroz e assustador dos cenários, onde as regras e as punições passam muito além do aceitável, e onde nem todos terão a oportunidade de viver uma vida plena. O medo, o desespero e a revolta são sentimentos constantes e mesmo que não haja nada que se possa fazer em contrário, existe sempre alguém disposto a desafiar as regras, ainda que acabe por o fazer inconscientemente.
Fiquei deslumbrada com o gigantesco potencial de Katniss e curiosa em saber quais as consequências dos seus actos. Peeta deixou-me petrificada com a sua modéstia e beleza natural, principalmente visto que no final fica a ideia de que ele foi o mais  verdadeiro de todos os intervenientes, e inteiramente catalisada à sucessão de acontecimentos que a autora criou neste primeiro volume de uma trilogia que promete mostrar ainda muito mais. Um livro muito, muito bom que me fez desabrochar toda uma mescla de emoções contraditórias e avassaladoras, desde a ânsia à fúria, passando pela alegria de um sorriso, a reprovação de uma nação e o desprezo por quem detém as rédeas do poder. Uma obra que me preencheu, por completo, as medidas e que, de certeza, qualquer apaixonado por algo diferente irá adorar. Uma brilhante aposta da Editorial Presença.

Para mais informações sobre a obra, veja aqui

5 comentários:

GirlinChaiseLongue disse...

Homónima eu sabia que ias adorar!=D

Bia Carvalho disse...

Estou lendo esse livro e juro que é o melhor que já li até hoje.
Estou sendo literalmente esmagada por ele...

Bjs
Bia
www.amormisterioesangue.com

Pedacinho Literário disse...

Ai, homónima, adorei mesmo! Vê-se logo pelo tamanho da opinião, eheheheh. A ver se pego na continuação, mas quero deixar este primeiro assentar bem para prosseguir. :)

Bia,
O livro é muito bom, sim.

Beijinhos

Carla M. Soares disse...

Com os comentários que tenho lido e o filme aí a rebentar, estou a ver que tenho que mandar vir os livros da amazon! Ou é demasiado YA para quem já passou esse estatuto há algum tempo? :P

Pedacinho Literário disse...

Carla,

Pessoalmente, não achei que fossem demasiado YA, até porque não existe aquela tensão de um amor impossível no ar, sabes?! É um livro extremamente cru, violento e reflexivo. Eu gostei imenso. Ainda não li a restante trilogia mas por este livro, acho que vale bem a pena. :)

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