Título Original: Iron Kissed
Autoria: Patricia Briggs
Editora: Saída de Emergencia
Nº. Páginas: 261
Tradução: Manuel Alberto Vieira e Ester Cortegano
Sinopse:
Mercy Thompson é mecânica de automóveis e uma rapariga tão bela quanto independente. O seu segredo? Consegue mudar de forma. A sua perdição? Não consegue mudar de lealdade. Como tal, quando o seu antigo mentor é preso por assassínio e deixado a apodrecer atrás das grades pela sua própria espécie, Mercy está disposta a arriscar a vida numa missão solitária para limpar o nome dele. Mas a sua lealdade também vai ser testada de outros lados: os lobisomens não são conhecidos pela sua paciência e, se Mercy não se decide entre os dois de quem gosta, Sam e Adam podem fazer a escolha por ela...
Com enredos tortuosos, personagens inesquecíveis e uma escrita dinâmica, Patricia Briggs eleva a fantasia urbana a novos patamares de qualidade.
Opinião:
É por romances como Beijo do Ferro que Patricia Briggs tornou-se, com relativa rapidez e facilidade, uma das autoras que mais admiro e aprecio; e que Mercy Thompson se transformou numa das personagens femininas de que mais gosto e mais prazer sinto em folhear. E porquê? Porque é simplesmente genial a forma como a autora aborda uma temática tão batida e banalizada do sobrenatural e, ao mesmo tempo, constrói uma personagem tão encantadoramente humana como especial.
Pessoalmente, o ponto mais forte de toda a série é, sem sombra de dúvida, a própria Mercy Thompson e todo o leque variado de personagens que Briggs vai gradualmente apresentado ao leitor e que embelezam e fortificam uma estrutura narrativa de si já robusta e bem pensada e construída. A somar temos a sua escrita. Patricia Briggs faz uso de uma linguagem corrente, moderna e simples, acessível a qualquer tipo de leitor e que, desse modo, se torna duplamente empolgante e entusiástica. Atenta aos pormenores e sem se exceder nos problemáticos e emotivos devaneios de Mercy, a autora confere um certo e muito apreciado sentido de realidade e humanidade a uma história assumidamente sobrenatural.
Um segundo aspecto positivo e excitante que envolve toda a série é o facto de cada volume retratar uma espécie do foro fantástico diferente. Com O Apelo da Lua, o leitor foi de encontro a uma introdução ao mundo pessoal e social de Mercy, uma vez que ela própria, embora sendo uma caminhante por natureza, foi criada e educada no seio desta espécie uivante – os lobos. Assim, o leitor ficou a conhecer não só um pouco do passado da protagonista como as bases pelas quais ela se ergue enquanto humana e enquanto ser solitário e individual e que, em última instância, a fizeram a pessoa que actualmente é. Auxiliado por Vínculo de Sangue, o leitor prossegue viagem por caminhos tortuosos até bem ao centro da colmeia vampírica. Stefan, um vampiro sedutor e atraente, ao pedir ajuda a Mercy permite ao leitor deixar-se embrenhar numa sociedade nocturna erigida por um forte sentido de lealdade, idade e hierarquia, de poder e de atracção sanguínea. Uma vez que o vampirismo continua a agradar às massas, Vínculo de Sangue não só serviu de pretexto à angariação de mais fãs ao séquito de seguidores de Mercy Thompson como também mostrou uma certa versatilidade pouco encontrada em sagas dentro deste género do fantástico e que, normalmente, tendem a centrar-se num único grupo de criaturas paranormais. Agora, com Beijo do Ferro, a batata quente vai cair nas mãos de uma das espécies sobrenaturais mais reservadas e no entanto poderosas e temidas – os seres feéricos –, cuja capacidade de controlo dentro da própria Fairyland diminuiu perante um assombro misterioso de mortes e ataques constantes e culpados inexistentes.
A série torna-se assim bastante interessante e distinta no sentido em que o leitor, a cada volume lido, sente-se mais ligado e envolvido em toda a trama e em todas as dificuldades e situações stressantes que servem de sobressalto na vida de Mercy. Do mesmo modo, que o leitor não se cinge ao simples saber da existência de tais espécies; é-lhe verdadeiramente facultada uma história, uma base e um passado de sofrimento, decisões difíceis e magia que envolve todos os habitantes, mortais e imortais, que perfazem a vida de Mercy uma autêntica e imutável busca por sarilhos.
Em Beijo do Ferro, o trio amoroso vem conferir uma certa suavidade e emoção mais sensível e romântica a uma história recheada de acção. Uma vez que Stefan saiu decididamente da equação – pessoalmente, senti a ausência desta personagem de que tanto gosto – Mercy vê-se permanentemente indecisa entre a escolha de Adam, um macho Alfa que imediatamente a reclamou como sua parceira perante todo o bando e Samuel, uma paixão de infância e cuja amizade e apreço nada poderá quebrar. É neste volume que Mercy faz a sua escolha definitiva e embora, por um lado, não seja uma total surpresa, por outro, não deixa de oferecer alguma novidade menos territorial e persuasiva à qual o leitor não está acostumado. Contudo, e quando lerem – se já não o leram – perceberão o que digo quando afirmo que fiquei um pouco desiludida com a forma como tanto a protagonista como o lobo em questão chegaram à conclusão de que a escolha contrária não só é bastante óbvia como igualmente aceitável.
A acção e o desenrolar da história são também duas componentes importantes e muito estimadas nesta série, especialmente em Beijo do Ferro. Sendo uma obra de pura fantasia urbana, é excelente a maneira como o leitor se vê constantemente rodeado de muita acção e adrenalina, conjugada com a dose certa de suspense e mistério. A apresentação do problema, as várias e perigosas possibilidades de resposta e os inesperados bloqueios pelo caminho apresentam-se não só naturalmente como presenteiam o leitor com uma sensação de frescura e imprevisibilidade à muito ansiada neste género. O cenário adquire também uma importância extrema servindo, inclusive, como mote e personagem integrante em muitos momentos da história – friso a oficina de Mercy, perto do final do livro e Fairyland, sempre repleta de surpresas e magia incalculável.
Destaque ainda para Tim, uma das personagens novas que tanto consegue ser intragável como amistoso e que, inexplicavelmente, seduz e enreda o leitor numa teia de inconfidências e conhecimento peculiar e, ao mesmo tempo, estranho e inseguro; para Ben, que não só surpreende como deixa o leitor com uma visão completamente mudada e compreensiva perante a sua difícil confidência; para os artefactos feéricos que, gradualmente, vão conferindo uma seriedade e sensação de perigo e abandono que deixa o leitor num alerta fixo por sinais e medidas de segurança e resposta e, claro, para Mercy Thompson – uma protagonista que não deixa de surpreender e cativar. Daquelas personagens que o leitor adoraria convidar para um café ou, melhor!, para ver um filme em casa acompanhados de um gigantesco balde de pipocas.
Beijo do Ferro é um terceiro volume esclarecedor em muitos aspectos mas que, inevitavelmente, deixa uma extensa e irrevogável lista de curiosidades por descobrir e perguntas por responder. Acima de tudo, é um livro que aguça a curiosidade para o que aí vem e que permite desvendar um pouco mais do que está por detrás da cortina que esconde muitas particularidades, poderes e influência presentes nos seres feéricos e nos Senhores Cinzentos. Segue-se Cruz de Ossos – fantasmas? –, que certamente irá de encontro a um tema apreciado e ainda pouco explorado. Estou ansiosa pela continuação... e a morrer por um vislumbre da capa. Confesso, podem não agradar a todos, mas acho as capas desta série belissimamente maravilhosas.